quinta-feira, 28 de junho de 2007

Contos no contexto terapêutico

Aqui estou eu pra falar um bocadinho sobre um assunto que julgo ser importante: os contos no contexto terapêutico.

Desde tempo imemoriais , o ser humano tem narrado suas histórias como forma de transmitir valores culturais , espirituais e morais, próprios de cada povo.

Os contos são instrumentos preciosos, que colocam em palavras, aquilo que de outra forma estaria condenado a permanecer encerrado no silêncio:os medos, as angústias, os enigmas, os questionamentos de todos os tipos.

Todos nós temos necessidade de ouvir e contar histórias, não apenas como entretenimento, partilha mas para compreender o que elas tem para nos dizer;porque o interessante das histórias é que elas falam; falam de nós, dos outros e de nossas relações com os outros.

Basta lembrar-nos que em determinadas situações ou épocas difícies da nossa vida, quanta vezes ouvimos uma certa música , ou lemos ou relemos certos textos, em função da mensagem que transmitiam e o bem -estar que nos causavam?

Acredito (e tenho comprovado isso no meu trabalho em hospitais e em outros locais) que quando o ouvinte se indentifica com os personagens da história ele aprende pouco a pouco, a superar os obstáculos a e "visualizar-se" como o herói .E a partir dessa "conexão", vai ganhando força e garra para transpor tudo o que o esteja impedindo de cura-se de determinado problema que esteja passando.
Tudo porque a nivel inconsciente há uma acção, uma força maior que permite a pessoa progredir e enfrentar as dificuldades.

Nas crianças isso é bem menos complexo pois elas são extremamentes receptivas e não se auto-defendem imediatamente ou julgam como uma "historinha boba" e sem sentido...elas vivem o momento ...deixam-se levar...ESTAR..

Já nos adultos tenho observado que existe (por parte de algumas pessoas) o desconhecimento e um certo desprezo em relação as histórias como meio de comunicar alguma coisa.Tanto que há o lado que julga ser esta uma actividade somente lúdica e de passatempo...

Realmente é uma pena que exista esse pensamento mas respeito o ponto de vista dos outros pois todos nós somos livres para dar opinião e pensar sobre qualquer assunto que seja.

No entanto, a meu ver, há uma afinidade incontestável entre a mente humana e a arte de exprimir -se através das alegorias, histórias e mitos.E isso é comprovado através de inquéritos, livros, teses e principalmente no dia- a-dia, nas sessões de contos e visualização criativa.

Mas agora alguns de vocês devem estar a pensar: afinal como são essas sessões de contos no contexto terapêutico?
Bom começo dizendo que a base toda vem das histórias e alegorias, além de exercícios de visualização.
Histórias, mitos e lendas todos nós sabemos o que significa, mas alegoria nem todos sabem. E o que é uma alegoria? Alegoria** ( do grego allegoria) é a representação, a expressão de uma ideia por uma figura dotada de atributos simbólicos ou por uma metáfora desenvolvida.

Quanto a metáfora**, pode ser definida como um procedimento pelo qual se atribuiu um nome a uma pessoa ou coisa através da comparação subentendida, uma analogia.

Utilizo-me muito de alegorias e contos tradicionais ou literários que abordam algum tema definido para desenvolver o trabalho com crianças nos hospitais.
O objectivo dessas sessões é despertar a atenção consciente do indivíduo e "suspender" seus mecanismos de defesa, a fim de permitir que ele entre em contacto com as forças de seu incosciente, ricas de possibilidades e soluções.

Segundo Bruno Bettelheim*** ," a criança(e acrescento também os adultos) precisa de contos de fadas, uma espécie de metáfora mágica, para aprender a resolver os impasses de sua vida infantil, como conseguir realizar tarefas que parecem impossíveis a primeira vista, ultrapassar os perigos, suportar situações pneosas, tomar decisões adequadas para a sua sobrevivê
ncia e seu desenvolvimento pessoal.

Portanto , a criança precisa receber de forma simbólica, como nas alegorias, as sugestões sobre como tratar seus problemas e caminhar com segurança para a maturidade."

São diversos os temas abordados neste tipo de sessão: solidão, aprendizado escolar,obesidade, racismo, envelhecimento, medo, baixa auto-estima,crises familiares....e são dirigidos tanto a crianças como a adultos.

Porém, uma coisa importantíssima acerca disso devo dizer: a utilização de um conto acarreta uma clara responsabilidade por parte do narrador( digo isso em trabalhos direccionados em hospitais , clínicas... com objectivos terapêuticos).

A grandeza, a verdade, e a nobreza de uma história podem transformar a vida de uma pessoa.Enquanto que o contrário, a falta de visão de uma história, pode bloquear os horizontes e diminuir ou até mesmo deter o crescimento do individuo.Por este motivo é necessária uma certa prudência na escolha de repertórios neste contexto. É preciso saber bem as características do grupo, trocar constantemente informações com os médicos e terapeutas responsáveis pois este é um instrumento, ao mesmo tempo simples e complexo, que não pode ser aplicado como receita de cozinha.

Enfim em breve voltarei a escrever sobre esse assunto aprofundando mais algumas questões.Também vou escrever sobre a visualização criativa que é uma técnica que se completa de uma forma fantástica com os contos.

Texto Clara Haddad

"As coisas não mudam.É você que muda seu modo de encará-las apenas isso." Castaneda


**Fonte Dicionário Larousse
*** Bruno Bettelheim-Psicanálise do contos de fadas

Contos da Carochinha- Brincadeiras com Arte
Clara Haddad - 0351 91. 465.6372 www.elavemhistoria.blogspot.com

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Quais são as "ferramentas" que o narrador possui?


Do que dispõe o narrador oral/contador de histórias?

Seu corpo, sua voz, seu olhar…
Também e não menos importante uma sala ( jardim, livraria, teatro, biblioteca, auditório...) e um grupo de ouvintes convidados a viajar por países e reinos encantados.

Concordo com o que o Laerte Vargas tão sabiamente diz: "este é um momento mágico, único onde compartilhamos e convidamos o ouvinte a entrar num outro ambiente, num outro lugar, mundo, espaço ...
e é preciso estar atento para a força que este momento tem! "

Normalmente , vejo muitos contadores com a ideia de iniciar logo a sessão de contos sem criar um laço de proximidade, sem criar cumplicidade para que uma comunicação se estabeleça.Começam logo contando a história.Acredito que a cumplicidade com os ouvintes se dá com o silêncio desse encontro, o olhar convidando para o contar, o sorriso, a magia...

Para além disso, as características pessoais de cada narrador fazem a diferença, a maneira como iniciam, como começam os relatos, se são divertidos, se são mágicos, se são misteriosos vai variar muito.

Uma das coisas que falo nas minhas oficinas de formação e que acredito ser importantíssima é chegar antes à sala ou ambiente aonde vai se dar a sessão de contos pois isso faz com que o contador sinta-se mais no ambiente, sinta-se mais a vontade, sem pressa. Não dá para chegar em cima da hora, apressado,desalinhado sem ter ambientação com o espaço.

A vantagem disso, a meu ver, é que vai contribuir para que o narrador possa sentir as reais dimensões do espaço, perceber com quais dificuldades vai precisa lidar . Feito isso é prepara-se para partilhar a palavras e afectos com os ouvintes.
E aí CADA NARRADOR TEM SEU ESTILO , SUA FORMA e vai buscar dentro de suas características pessoais aquilo que mais vai se adequar ao momento. Há tantas formas e é essa diversidade da narrativa que é interessante!
Alguns criam uma banda sonora , outros buscam ter acompanhamento musical de alguma forma,outros e valhem da força da palavra... ... enfim... cada nararador vai definir sua maneira de dinamizar a sessão de contos daquele dia.


Nunca se esquecendo que atrás de você, narrador, nada que interfira na viagem deve existir.
Devemos escolher um local calmo e tranquilo, aconchegante sem ser um local de passagem de pessoas ou de muita circulação.Cenários e objectos em excesso não são recomedáveis a não ser que estes tenham sido colocados por si e contribuam e não distraiam a atenção dos ouvintes. (que estes elementos , se existirem, somem a sua narrativa e não ao contrário)

Geralmente existem alguns elementos e objectos em um espectáculo de narração (que combinam linguagens artísticas sem perder o fio narrativo ,mas isso é questão para outra matéria)

Uma dica que dou e que acredito ser muito importante é: saboreie a entrada dos convidados,olhe para eles e não fique ansioso para começar a contar! Respire fundo, aproveite o ambiente de expectativa, crie expectativa.Fique da maneira que achar mais confortável e em hipótese alguam tenha pressa.

Olhe para os seus convidados, respire profundamente, sinta os seus pés bem plantados no chão, ou fique na maneira onde esteja o mais confortável possível e, em hipótese nenhuma, tenha pressa…

Divirta-se, alegre-se, viva aquele momento porque ele é único e não se repete em nenhuma outra sessão mesmo que sua maneira e seu “ritual” sejam absolutamente iguais em todas as sessões.

Com o tempo, você vai perceber que o próprio grupo sinaliza, de uma forma misteriosa e silenciosa, o momento que você deve começar a contar. Nesse entremeio, nosso grande anfitrião: o olhar. Ai o olhar..o olhar que fala tantas coisas...

Respire lenta e profundamente até sentir que a sua respiração e a do público se fundiram, tornando-se uma só.

Então, comece: se tiver “era uma vez” melhor ainda: essas três palavras mágicas são como um tapete voador a serviço da fantasia. Estão carregadas de significado.

Prepare-se bem, saiba o que vai contar, deixe clara a estrutura da trama, o início é fundamental para que o ouvinte situe-se no tempo e no espaço, em seguida apresente os personagens envolvidos no enredo e depois vá desenvolvendo a história até chegar ao clímax e o final.

Desenvolva esses passos percebendo como ele está ecoando na platéia:

O momento inicial também é o momento para identificar aquele ouvinte inquieto que deverá requerer mais atenção que os demais. Torná-lo foco das atenções, direccionar a história para ele inicialmente pode fazê-lo ficar mais receptível e cúmplice. E para isso, com que contamos? Nosso amigo inseparável: o olhar.Claro que nossa voz e a expressão corporal também são grandes aliados..mas o olhar ..este convida….aproxima…preenche os silêncios, passa a emoção e mais do que tudo ele diferencia a “sessão de contos” de tantas outras linguagens.
E para finalizar, não se esqueça que o "sucesso" depende de um fórmula: saber bem a história que vai contar, estar a vontade para isso, olhar seus convidados e estar disposto e aberto a fazer improvisações , e isso só consegue quando tem a história muito bem trabalhada e estudada.Enfim viva o momento!
texto escrito por Clara Haddad com trechos e citações do artigo escrito por Laerte Vargas contador de histórias e dinamizador de oficinas de contadores no Rj-Brasil

"O contador de histórias é aquele que traz o coração em seus olhos"autor desconhecido
Contos da Carochinha- Brincadeiras com Arte
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quinta-feira, 14 de junho de 2007

Este blog está em construção!!!!

Aguardem em breve novidades!
Pra já visitem meu blog "Contos da Carochinha" lá encontram minha agenda de trabalho, cursos, eventos,sessões de contos para crianças , jovens e adultos.